Tourneo Courier Active: conduzimos o MPV da Ford que nos deixou a sonhar com uma surftrip pela costa alentejana (ou a ir buscar móveis ao Ikea)

Há testes que nos tiram da nossa zona de conforto e este foi precisamente um desses exemplos. Na MotorMais, nunca tínhamos testado um MPV e a estreia aconteceu com este modelo da Ford.
Quando vimos a Tourneo Courier Active no portfólio da Ford, e já depois de termos testado os principais modelos desta marca, quisemos explorar um novo segmento: o que “balança” entre o transporte de pessoas e carga, com aquela silhueta típica de uma carrinha comercial.
Esta gama começa nos 27 772 euros, na versão Trend, mas o Active ensaiado arranca nos 31 364 euros. Sob o capot, nada de EV: aqui encontramos o motor a gasolina 1.0 EcoBoost de 125 cv, com tracção dianteira e caixa automática DCT de sete velocidades. A Ford anuncia consumos de 7,5 l/100 km e, no nosso ensaio, que durou quase uma semana, chegámos ao fim com 7,6 l/100 km, praticamente igual ao prometido pela marca.

Visualmente, a Tourneo Courier não foge, como dissemos, à silhueta de caixa das carrinhas comerciais, mas ao ser um pouco mais alongada, entre outros detalhes, foge ao registo clássico deste segmento e aproxima-se claramente de um SUV, tanto nas proporções (menos de 4,5 metros de comprimento) como na atitude.
À frente, um destes detalhes são as próprias ópticas: destacam-se pelo desenho expressivo, quase provocador, capazes de fazer “corar” as soluções que já encontrámos em automóveis que estão mais dentro da nossa zona de conforto, para usar a expressão do início do texto.
Outros dois exemplos da diferenciação de aspecto da Tourneo Courier estão na grelha frontal, com um design a lembrar favos de mel; e na possibilidade de pintar o tejadilho de branco, uma solução mais comum em SUV (como no Opel Frontera), aqui por mais 427 euros.

A versão que testámos vinha numa das cores de série, a Cactus Grey, sendo que a única alternativa gratuita é a Frozen White. Ainda assim, a que mais nos chama a atenção é a Bursting Green – contudo, isto vai-nos custar mais 407 euros. A lista de extras inclui também as luzes diurnas LED com faróis de halogénio (152 euros) e o Pack Winter (508 euros), que acrescenta elementos como o pára-brisas Quickclear, bancos e volante aquecidos. Com um desconto activo de 3 296 euros (esta semana, no momento da configuração), o preço final desceu de 34 029 para uns mais interessantes 31 387 euros.
Ao comprar um MPV, sabemos que não estamos apenas a comprar um automóvel para transportar pessoas. O ADN dos multi-purpose vehicles dá-nos margem para pensar em carga, o que pode ser muito prático para várias famílias. Desde logo, a porta traseira é, literalmente, gigante (para o que estamos habituados, claro): 1,1 m de altura por 1,2 m de largura.
A bagageira tem 570 litros e chega aos 2162 com os bancos traseiros rebatidos, um espaço suficiente para mudanças improvisadas, idas ao Ikea há muito adiadas ou viagens em família sem termos de nos preocupar com o clássico jogo de Tetris com as malas.

Durante o ensaio, couberam, sem esforço, duas pranchas de bodyboard e duas mochilas grandes, com margem para duplicar a bagagem, um argumento que consideramos muito forte para surf trips e escapadelas de fim-de-semana. Contudo, nos lugares traseiros, o espaço fica aquém do que a silhueta exterior sugere. A Ford privilegiou claramente o volume do compartimento de carga — talvez seja mesmo melhor chamar-lhe assim, em vez de ‘bagageira’.
À frente, o ambiente muda de tom. O habitáculo assume uma identidade muito analógica, quase totalmente dominada por plásticos, do tablier às portas (a excepção surge numa pequena zona forrada a tecido, igual ao dos bancos). Os estofos Black com inserções em Nordic Blue são de série nesta versão, tal como o volante forrado a couro sintético Sensico. Aqui não há grandes ecrãs nem exuberância digital, um sinal claro de uma abordagem mais profissional e funcional da Ford.
O sistema SYNC 4 personifica-se num ecrã táctil de oito polegadas com Apple CarPlay e Android Auto sem fios (muito prático), além do Pack Driver Plus com navegação, tudo de série. Contudo, o ecrã é pequeno para os padrões actuais e fica encaixado numa moldura que o parece tornar ainda mais pequeno. Já os menus do sistema SYNC surgem organizados por cartões que nos dão acesso a listas de opções para parametrização.

Um dos que costumamos analisar com mais demora, o dos sistemas de assistência à condução, fica aqui escondido em ‘Funcionalidades’ e não existe botão físico para desligar tudo de uma vez. Ainda assim, os alertas de excesso de velocidade não são intrusivos: após algumas horas ao volante, tornam-se parte do “ambiente”. Resta dizer que o ecrã táctil é complementado por uma linha de botões físicos, seis deles dedicados à já crónica climatização.
Relativamente ao painel de instrumentos, temos um display de 11 polegadas, embora as laterais apresentem informações estáticas: temperatura do motor à esquerda e nível de combustível à direita. No ecrã propriamente dito, a leitura da informação é bastante clara: autonomia em quilómetros, marcha seleccionada, temperatura exterior e, no centro, velocidade, limites de velocidade detectados e posição do Tourneo na faixa. Com os comandos no volante (todos intuitivos e bem distribuídos), surgem menus rápidos e dados de consumo. Tudo simples e muito fácil de compreender.
O ADN analógico do Tourneo alastra-se a outros detalhes. Por exemplo, à esquerda do volante, os comandos de luzes recorrem a um selector rotativo tradicional, acompanhado por um curioso comando saliente para regular o ângulo da iluminação. Depois, a manete da caixa automática mantém o formato clássico, como num automóvel manual, com ‘PRND’ e ‘L’ (aqui, passamos a ter uma relação mais curta, ideal para uma resposta mais imediata em subidas, manobras ou quando levamos mais peso). O travão de mão segue a mesma lógica: é manual, mecânico e colocado na consola central, sem automatismos.

Por falar em consola central, este local deixa a desejar em arrumação. O seu perfil baixo eliminou os compartimentos fechados para pequenos objectos, uma função que recai apenas sobre o porta-luvas ou a prateleira superior junto às palas. Em contrapartida, existem vários mini-compartimentos para guardar chaves ou moedas, sempre com o mesmo problema: fica tudo à vista.
No conjunto, o Ford Tourneo Courier Active mostra-se um automóvel honesto, funcional e, temos de destacar, surpreendentemente bem desenhado. Não tenta ser aquilo que não é, nem se perde em efeitos especiais: é quase um modelo à antiga, alérgico a bells & whistles tech, que se assume como uma “ferramenta versátil” para a vida real, com um toque de estilo que o afasta da monotonia do segmento.











