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EV3 Tech: conduzimos o Kia que esteve no topo do mundo (e que gastou muito pouco para lá chegar)

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O que é que fez do Kia EV3 o ‘Carro do Ano Internacional 2025’? A resposta começa por algo simples: é muito forte naqueles dois ou três pontos-chave que realmente interessam.

Com 4,3 metros de comprimento e 1,85 metros de largura, este B-SUV eléctrico parece criado à medida do mercado europeu: as dimensões são contidas, mas lá dentro o espaço é familiar. A isto, junta uma promessa de autonomia acima dos 500 km.

O design é um dos grandes argumentos do EV3, tal como o é para toda esta gama da Kia: não há dúvida de que estamos perante um dos mais belos SUV do mercado, fruto da linguagem Opposites United: linhas rectas, poucas superfícies arredondadas, ópticas longas e estilizadas.

A altura baixa dá-lhe um ar ainda mais compacto do que o próprio formato sugere e os vidros da frente/trás alinham-se com essa silhueta, para o mal e para o bem. Se na estética, a nota é alta, a visão pelo retrovisor fica limitada devido ao facto de ser muito estreito.

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Apesar disto, o interior nunca nos deu uma sensação de claustrofobia, muito pelo contrário: respira bem e surpreende pelo espaço. A posição de condução é boa, os assentos são confortáveis e quem for na fila de trás pode ir de perna cruzada, tudo bons trunfos para um B-SUV. Aqui, vemos ainda um detalhe curioso: as portas USB-C surgem incrustadas nas laterais internas dos bancos dianteiros.

Também num bom nível está a oferta tecnológica desta versão: o EV3 mete-nos à frente um ecrã total de trinta polegadas (que junta painel de instrumentos, um display só para a climatização e o ecrã de infoentretenimento, sem divisões físicas – muito como no novo IONIQ 5), Apple CarPlay, Android Auto e uma base Qi para carregamento por indução.

Ainda assim, ao nível da ergonomia, nem tudo são rosas: por exemplo, o selector de marcha, apesar de ficar num local acessível, na coluna de direcção, tem o Start/Stop demasiado recuado, quase junto à base, o que torna o liga/desliga menos prático que devia. A identificação não ajuda: tem apenas as letras ‘EV’, quando a solução mais lógica passava por um botão no tablier, bem visível.

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No que respeita a botões físicos, digamos que o EV3 tem soluções para todos os gostos: por baixo do ecrã existe uma fila de comandos sensíveis ao toque, com feedback háptico, para atalhos como ‘Home’, ‘Mapas’, ‘Multimédia’. Abaixo, um controlo de volume e mais uma série de botões tipo “patinhas” para a climatização, função que tem direito a um ecrã próprio de cinco polegadas.

Aqui, contudo, mais um problema: este display fica parcialmente obstruído pelo volante, o que complica, e muito, a sua operação. Durante o teste que fizemos, usámos este recurso apenas uma vez, pois achámos muito mais simples operar os botões físicos na zona das saídas de ar.

Muito úteis são as patilhas do volante que permitem ajustar a regeneração em três patamares, com a respectiva mudança de força na travagem, a que se junta o i-Pedal (temos de manter pressionada a patilha da esquerda até surgir a indicação no painel de instrumentos), que permite conduzir grande parte do tempo só a carregar e a levantar o pé do acelerador.

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O volante de dois raios (na GT-Line são três) entra na mesma lógica maximalista do cockpit, com mais de uma dezena de botões para multimédia, informação do painel e cruise control. À esquerda, e bem, fica o botão do modo de condução, do ‘Eco’ ao ‘Sport’, mas não percebemos o facto de a Kia ter colocado aqui um dos botões ‘Estrela’ e outro no tabelier – fazia mais sentido ter dois no volante, um de cada lado.

Estes permitem associar dezoito funções, como acesso directo ao telefone, ecrã inicial, mapas, definições de energia e, também, as assistências ao condutor. E esta última é obrigatória definir, pois irá estender-nos uma “passadeira vermelha” para desligar rapidamente alertas sonoros de excesso de velocidade e cruzamento de faixa, demasiado intensos e irritantes.

Isto é ainda mais notado, pois a sensibilidade dos sensores (passando a redundância) também é alta: numa simples mudança de faixa, os avisos disparam com insistência mesmo com o carro de trás ainda longe, sem perigo real. O resultado é desconforto e sustos desnecessários, com a sensação de que o EV3 detecta sempre algo que não vemos, o que nos deixou, muitas vezes, inquietos.

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No capítulo da arrumação, a consola central não tem a clássica coluna elevada e, por isso, temos de esticar muito a mão para chegar aos objectos que colocamos aí. Aqui, o “elefante na sala” é a falta de um espaço onde se escondam objectos: existe uma base ampla, mas sempre à vista de quem espreite para dentro do carro. Já onde seria de esperar um compartimento sob o apoio de braço, nada…

Em “troca”, a Kia oferece uma solução interessante: uma base deslizante, com efeito “flutuante”, que avança ou recua e concentra botões de condução como auto hold, câmara traseira, sensores de estacionamento e controlo de descida. Esta peça também pode servir de pequena mesa para uma refeição, uma bebida ou um portátil, útil para trabalho em movimento.

Na gestão de autonomia, o EV3 tem uma abordagem muito prática e inteligente: com o valor em tempo real, mostra-nos ainda o máximo e o mínimo para a carga disponível, uma forma eficaz de reduzir a ansiedade e contextualizar a distância possível, quer com condução mais agressiva, quer mais contida.

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Num exemplo concreto, com 76% de bateria, o painel indicava 572 km de máximo e 247 de mínimo. No mapa, a marca também representa esta lógica de forma gráfica, para vermos melhor até onde podemos ir, mas só apresenta o valor de autonomia em tempo real. Aqui, também gostávamos de ver a margem máxima e mínima.

Os consumos oficiais da marca apontam para 16,2 kWh/100 km (combinado), mas o valor com que terminámos o teste ficou muito abaixo, além de que tivemos a sensação de que, com uma condução ainda mais comedida, poderíamos ter baixado ainda mais: foram 13,5 kWh/100 km. Um dos grandes contras desta versão acaba por ser o preço.

Apesar de começar nos 35 500 euros, a Tech faz disparar o preço para os 41 748, neste caso com 500 euros a virem da cor Ivory Silver que estava na versão cedida pela Kia. Entre os outros bónus estão as jantes de 19 polegadas e bancos em pele sintética com regulação eléctrica para o condutor, já incluídos no lote dos extras.

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O Kia EV3 Tech impressiona pelo espaço a bordo, consumos e por algumas soluções inteligentes a bordo, mas há uma outra falha de ergonomia que nos impede de dizer que tivemos uma experiência mais bem conseguida. A isto junta-se o preço das versões mais equipadas, que o fazem ficar a perder, em termos racionais, relativamente a alguns dos seus “vizinhos” asiáticos.