Model 3 Premium Long Range RWD: conduzimos o Tesla que parece que guiamos desde sempre

O sedan desportivo da Tesla mostra por que razão há automóveis eléctricos e… automóveis eléctricos: são 750 km de autonomia, 5,2 segundos dos 0 aos 100 km/h e um ecossistema difícil de igualar.
Ao longo de 2025 testámos praticamente tudo o que de novo (e não só) chegou ao mercado nacional: foi quase um ensaio por semana para a MotorMais. Entre eléctricos de todas as formas e propósitos, houve modelos que se destacaram, como os Polestar com Android Automotive e a lógica de smartphone sobre rodas; ou o Renault 5 E-Tech, com a sua mistura equilibrada de nostalgia e diversão.
Mas, como se costuma dizer, há automóveis e… ‘automóveis’. Já tínhamos tido esta sensação com os Model Y, um deles ficou mesmo no top 3 dos melhores de 2025: Elon Musk conseguiu mesmo criar o EV definitivo. Quando nos sentamos ao volante de um Tesla, parece que o conduzimos desde sempre: é, no mínimo, uma sensação muito estranha. E, quando isto acontece com tecnologia, é sinal de que a inovação não se impõe: simplesmente, faz sentido.

Nesta versão Premium Long Range de tracção traseira (RWD), o Model 3 assume-se como um sedan mais discreto na gama da Tesla. O design está mais refinado que o da geração anterior, embora menos ousado que o novo Y – ainda assim, temos ópticas dianteiras mais rasgadas. A ausência de cromados dá-lhe um ar mais elegante e o tom geral é o de um modelo com linhas e aspecto mais marcante que o anterior Model 3.
As jantes ‘Photon’ de 18 polegadas, de série, garantem a autonomia máxima anunciada de 750 km WLTP, algo que parece óbvio, tendo em conta que quem optar pelas ‘Nova’, de 19 polegadas, perde alcance: fica com quase menos sessenta quilómetros e ainda tem de pagar mais 1700 euros. Nem percebemos como é que alguém pode ir nesta cantiga…
A ‘autonomia’ é mesmo a palavra-chave aqui. Estamos perante o Tesla mais eficiente de sempre e os consumos não nos deixam mentir: registámos 10,6 kWh/100 km ao longo de 495 km, o que contribui ainda mais para acreditarmos no que a marca diz. Não nos lembramos de outro modelo puramente EV com resultados destes, que nos deixam a sonhar com valores abaixo do limite psicológico dos 10 kWh.

Mas nem tudo são rosas: relativamente aos Model Y, que é o nosso meio de comparação mais forte, o Modelo 3 perde na acessibilidade à bagageira: aqui não temos uma secção inteira que se abre, mas apenas uma parte. O resultado é uma limitação evidente na arrumação de malas maiores e na bagagem ou compras. Atenção, ainda, às cabeças.
No interior, o minimalismo e o ecrã central de 15,4 polegadas continuam a ser os grandes trunfos, com este display a ser a “casa” de um sistema que mantém a fluidez e a intuitividade que o colocam entre os melhores do mercado. Aqui, a comparação com a Apple é inevitável, sobretudo quando usamos a app, um verdadeiro centro de controlo remoto: podemos activar o ar condicionado à distância, consultar câmaras, receber alertas de aproximação, buzinar ou fazer sinais de luz para localizar o carro. Há até espaço para humor, com sons personalizados – o já crónico ‘Pum’ arranca sempre várias gargalhadas.
Mas o que vale mesmo a pena experimentar é o que nos trouxe a mais recente actualização: o Grok passou a estar integrado na navegação… mas não só. Podemos conversar sobre tudo com este assistente de IA, quer com vozes femininas, quer masculinas, em português europeu. Durante duas ou três viagens, aproveitámos para falar sobre cinema, música e mesmo pedir conselhos para decisões que tínhamos de tomar.

Em todas as interacções, foi impossível não nos lembrarmos de Joaquim Phoenix em ‘Her’, o filme em que a assistente virtual Samantha (com a voz de Scarlett Johansson) entra na vida do protagonista de forma avassaladora. Ter uma IA destas num automóvel é interessante, mas, ao mesmo tempo, assustador. Contudo, temos também de dizer ‘divertido’, pois se a pusermos em modo ‘teorias da conspiração’, podemos fazer o nosso próprio podcast inspirado naqueles programas do Canal História sobre aliens.
Num sistema tão completo, só continuamos a sentir falta de Apple CarPlay e Android Auto, uma ausência que se sente sobretudo ao nível do Waze ou dos Google Maps (ainda que os mapas da Tesla sejam da Google). A estratégia é clara: manter-nos dentro do ecossistema. Há, ainda assim, apps que nos desviam a atenção disto, como o Spotify, o Tidal, o YouTube Music ou os Apple Podcasts.
Grande parte destas apps está virada para o multimédia, o que nos leva ao som, nesta versão assegurado por nove altifalantes, que dá uma envolvência suficiente. As variantes AWD sobem para quinze altifalantes e dois subwoofers, mas, para começar, a oferta sonora deste modelo cumpre.

O espaço mantém-se generoso, sobretudo atrás, assim como materiais agradáveis ao toque, numa mistura de pele vegan, microcamurça e tecido. Não faltam os bancos dianteiros aquecidos e ventilados, bancos traseiros aquecidos, assim como o volante aquecido. No que respeita a arrumação, voltamos a ter dois compartimentos amplos, bases para copos e uma dupla base Qi. Marca também da Tesla é o tejadilho panorâmico em vidro, que inunda o habitáculo de luz.
Na condução, palmas para o facto de a Tesla ter recuperado a manete tradicional para os piscas (aliás, como já tínhamos visto nos Model Y, substituindo os botões no volante); já a direcção, mesmo no modo ‘Leve’, é muito dura. Quem gosta de manobras mais ágeis vai ter de se habituar a um Model 3 mais resistente; quem for fã deste tipo de “peso” vai gostar de saber que ainda pode aumentar para ‘Normal’ e ‘Pesado’.
O preço desta versão fixa-se nos 48 974 euros (a cor Cinzento Furtivo soma mais 1300 euros), com a gama a começar nos 44 990 euros. A versão de entrada, também com tracção traseira, pode descer para os 35 mil euros, mas a autonomia reduz-se para 534 km. No fim, o Model 3 Premium Long Range RWD confirma a sensação inicial: não é apenas mais um eléctrico bem conseguido. É um automóvel pensado como sistema completo – máquina, software e ecossistema – e isto continua a colocá-lo num patamar diferente.










