Mazda 6e Takumi Plus: conduzimos uma “espada” eléctrica japonesa que não esconde o seu ADN chinês

O ‘Carro Eléctrico do Ano’ em Portugal tem, sem dúvida, um design marcante e que faz virar cabeças, mas a Mazda fez algumas escolhas discutíveis na ergonomia e no sistema digital.
O Mazda 6e já nos tinha sido marcado pela marca antes de saírem os resultados do Carro do Ano/Troféu Volante de Cristal 2026. Por isso, e ao ter ganho na categoria de ‘Carro Eléctrico do Ano’, a MotorMais acaba por ser o primeiro meio especializado em Portugal a experimentar este modelo, depois de ter ganho o galardão.
Assim, muito deste teste foi a tentar perceber por que é que o júri deste troféu decidiu atribuir a distinção máxima ao Mazda 6e, um automóvel de quase cinco metros resultado de uma joint-venture entre a Mazda e os chineses da Changan. De resto, este ADN chinês foi algo que iríamos notar (e muito) em vários momentos.

Criado sob o conceito Jinba Ittai, que simboliza a «união entre condutor e automóvel», o Mazda6e foi apresentado em Portugal em Maio do ano passado (pudemos vê-lo numa sala do hotel Marriott em Lisboa) e é um hatchback de cinco portas com 4,9 metros de comprimento e 1,89 de largura, proporções que lhe dão aquele ar de ‘automóvel de Embaixador’.
A traseira fastback aproxima-o de um coupé, com o aspecto geral do 6e a dar aquela ideia de “espada”, que reflecte bem a evolução do design Mazda. A grelha frontal iluminada e a faixa traseira a toda a largura, com um padrão entrançado, reforçam esta nova identidade da marca, enquanto as jantes aerodinâmicas de dezanove polegadas ajudam a “fechar” um visual desportivo e atlético. Se a isto juntarmos a cor Soul Red Crystal (a mais cara, 1050 euros), o 6e é mesmo um dos mais belos automóveis que conduzimos nos últimos meses.
Aqui na sua versão mais bem equipada Takumi Plus, o Mazda 6e tem um interior que segue a estética Ma, com foco na simplicidade, no espaço e na luz natural. Temos um tecto panorâmico (dividido a meio, algo de que não gostámos particularmente), iluminação ambiente personalizada e uma combinação de materiais que mistura pele castanha, camurça e superfícies com um bom toque. O ambiente é claramente premium, mas nota-se que estamos perante algo marcadamente chinês.

Isto nota-se, sobretudo, no painel de instrumentos de 10,2”, com demasiada informação, símbolos pequenos e leitura pouco intuitiva — algo que já vimos noutros modelos com esta origem, como alguns BYD. Já o ecrã central, de 14,6”, tem boa resolução, é fluído, mas mostra-nos uma organização confusa e concentra praticamente todos os comandos, dado que os botões físicos estão remetidos para o volante (nem o pára-Sol do tecto tem direito a um).
Assim, funções básicas como ligar as luzes ou activar o limpa pára-brisas não têm comandos dedicados, dado que tudo passa por toques no ecrã. Para compensar isto, a Mazda aplicou um sistema de atalhos ao deslizar o dedo a partir da lateral esquerda, que dá acesso a várias funções — uma abordagem pouco comum (costuma ser ao deslizar o dedo a partir do topo do ecrã), embora prática.
Depois há decisões difíceis de perceber e que já vimos noutros modelos chineses, em concreto o Leapmotor B10: sempre que fazemos um pisca, o ecrã é totalmente ocupado por uma vista 360º do carro e pelo feed da câmara que fica nos retrovisores. Resultado: tudo o que está por baixo, como os mapas (seja do sistema ou não), desaparece. Numa rotunda ou num cruzamento, isto pode ser perigoso, pois deixamos de ver para onde devemos ir.

O ecrã principal até está bem organizado em termos de lógica: temos uma representação do carro com acesso a várias funções, atalhos de áudio, ícones de apps como o Apple CarPlay e Android Auto (wireless), navegação e fluxo de energia, e uma barra inferior dedicada à climatização e funções essenciais.
Em termos de conforto, não seria de esperar outra coisa: temos bancos confortáveis, eléctricos e aquecidos, tal como o volante. Atrás, há bom espaço em largura e comprimento, mas a altura é curta e o piso alto deixa os joelhos levantados, talvez por culpa da bateria. Já o ecrã traseiro permite ligar opções como a climatização geral ou controlar o banco do passageiro, algo que pode dar azo a brincadeiras nada bem-vindas de quem vai atrás.
A capacidade de alguém que vai atrás poder controlar funções gerais de um automóvel é algo que não conseguimos compreender; já vimos isto em vários modelos e, quando não é um ecrã, são botões físicos acessíveis aos passageiros traseiros, como os do banco do “pendura” no KGM Torres, que testámos há duas semanas. Este ponto era algo que devia ser urgentemente revisto pelas marcas.

Em condução, o Mazda6e surpreende pela positiva. Com 258 cv, tracção traseira e 320 Nm, acelera dos 0 aos 100 km/h em 7,6 segundos e chega aos 175 km/h. Em cidade, é suave e até dócil. Passando para estradas mais exigentes, o baixo centro de gravidade e a tracção traseira tornam-no divertido, seja em que modo for – ‘Comfort’, ‘Normal’ ou ‘Sport’. Ainda assim, esperávamos mais disponibilidade deste último.
Mas, neste departamento, há uma falha difícil de engolir: a regeneração só pode ser ajustada no modo ‘Individual’, em quatro níveis, e sem termos direito a patilhas no volante, o que, num automóvel com esta ambição, simplesmente não faz sentido. Também a direcção, o travão e o acelerador só podem ser afinados neste modo, dado que os restantes têm tudo fixo.
Finalmente, temos um spoiler traseiro que acaba por ser um dos destaques estéticos e aerodinâmicos deste Mazda: levanta-se automaticamente acima dos 90 km/h (ou não, notámos que tem um temperamento muito especial…) para, supostamente, melhorar a estabilidade.

Contudo, e se quisermos dar aquele aquele toque ‘racing’ para quem for atrás, podemos atribuir um dos botões ‘estrela’ do volante à sua activação. Mas,
quando está levantado, tapa cerca de um terço do vidro traseiro, que já não é propriamente generoso. Resultado? A visibilidade fica ainda mais reduzida.
Nos consumos, registámos 15,3 kWh/100 km ao longo de 255 quilómetros (a autonomia anunciada é de 605 km em ciclo urbano e 479 km em combinado WLTP, algo que nos parece perfeitamente possível). O preço desta versão é de 48 mil euros, mas há uma campanha até 31 de Março que baixa para 45 549 euros.
Pesando os prós e os contras, o 6e merece a distinção de ‘Carro Eléctrico do Ano’? Sinceramente, e depois de termos testado dezenas de modelos deste género em 2025, só podemos concluir que o júri viu algo que nós, talvez por incapacidade técnica, não conseguimos descobrir ou entender.

Mas, sim, este Mazda é mesmo um dos mais belos da gama, com um interior mais exclusivo e que acaba por marcar uma nova fase para a marca japonesa. Tem presença, conforto e uma condução que honra o ADN da marca, embora a presença da Changan se intrometa (sobretudo na interface e na ergonomia) num ambiente que preferíamos que continuasse 100% japonês. É um EV que quer ser premium — e em muitos momentos consegue — mas que ainda precisa de afinar detalhes para atingir o equilíbrio que se espera de um Mazda.











