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ES90 Ultra: conduzimos o sedan da Volvo que cruza três segmentos num só automóvel (será que consegue?)

©MotorMais | ES90©MotorMais

Há automóveis que apenas se encaixam num segmento de uma marca para o manter actualizado. Depois, há outros que querem criar um novo: o ES90 quer dar-nos o melhor de três mundos.

Quando, há quase um ano, a Volvo revelou a forma final do ES90, descreveu este automóvel como um eléctrico que «combina a elegância de um sedan, a versatilidade de um fastback e o espaço de um SUV». Assim que o vimos pela primeira vez em Portugal, em Novembro do ano passado, percebemos o que a marca quis dizer.

O ES90 tinha, de facto, um formato e uma aparência que não podiam ser encaixados apenas num destes segmentos. Na altura, Luís Santos, director de marketing, e João Pereira, product manager da Volvo, sublinharam o facto de este automóvel estar numa «classe à parte». Depois de o termos conduzido, dizer que este modelo é uma mistura de três conceitos parece-nos exagerado, sobretudo na parte do SUV, mas como sedan-fastback não desilude.

Na verdade, não podemos deixar de ver o ES90 como aquilo que, na sua essência, é: o regresso da Volvo aos sedans, depois de a gama ‘S’ ter ficado sem intérprete. E a marca sueca, depois de ter inaugurado a linha ‘EX’, viu aqui uma oportunidade para a fazer voltar à vida, agora com uma plataforma eléctrica – daí o ‘E’.

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O resultado é um automóvel com muitas referências aos EX30, EX90 e que antecipa o que aí vem com o EX60. Contudo, à primeira vista, também é impossível não pensar no Polestar 2: a silhueta fastback elevada e a forma como cruza os conceitos apontam nesse sentido.

Mas as semelhanças ficam pelo aspecto, já que, a nível técnico, o ES90 assenta na plataforma SPA2, uma base 100% eléctrica, preparada para sistemas de 800 V e posicionada no segmento premium. Já o Polestar 2 parte de uma arquitectura mais antiga, adaptada.

Visualmente, o ES90 tem uma frente sem grelha, tal como os EX. As ópticas são as clássicas ‘Martelo de Thor’, agora mais finas e horizontais – aqui, o resultado é sólido, sofisticado e, até pela geografia natal da Volvo, frio. O que salta à vista são as imponentes jantes de 22 polegadas de cinco raios em Y, de acabamento preto brilhante e corte diamante, embora sejam um extra de 1341 euros.

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Atrás, a Volvo arrisca mais. A assinatura luminosa percorre toda a largura e cruza-se com blocos verticais nos extremos, mas o verdadeiro destaque está nas ópticas integradas na parte superior da porta da bagageira: inclinadas, altas, quase como um apontamento gráfico pensado para ser visto de cima, mais estético que útil. Uma palavra para a cor: não somos fãs de automóveis cinzentos, mas o tom Aurora Silver da versão ensaiada assenta-lhe bem: na carteira, pesa mais 1138 euros.

Por dentro, o ES90 aproxima-se mais do luxo tradicional da Volvo que do minimalismo da Polestar, com mais detalhes e texturas. Temos faixas em madeira que envolvem o habitáculo e que se iluminam com um padrão quente «inspirado nas casas escandinavas» (palavras da Volvo), o que cria um ambiente acolhedor.

Os estofos em branco nórdico ventilado reforçam esta sensação de sala de estar sobre rodas, mas talvez preferíssemos um bege, para dar um pouco mais de “calor” ao habitáculo. Certo é que o ES90 é tão confortável ao ponto de transformar viagens longas em momentos de descanso. Quem viajou atrás não teve dúvidas e disse-nos que nunca tinham estado num automóvel luxuoso com tanto espaço. O Mazda 6e, que serviu de referência, fica, agora, um passo atrás.

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À frente, o ES90 também convence: tal como atrás, os bancos são aquecidos e ventilados; depois, incluem função de massagem e suportes lombares ajustáveis, enquanto os encostos traseiros reclinam de forma eléctrica. A sensação de bem-estar prolonga-se com um tecto panorâmico electrocrómico que dispensa a habitual cortina: basta um toque para passar de totalmente translúcido a opaco, como se fosse um ecrã.

Nos Volvo mais recentes, a tecnologia está bem integrada, com base na plataforma da Google, e no ES90 não é diferente, com o sistema de infoentretenimento a assentar neste ecossistema, controlado através de um ecrã vertical de 14,5 polegadas. Há Apple CarPlay sem fios, Google Maps, Play Store e aplicações como Waze, Spotify, HBO Max ou Prime Video, com possibilidade de instalar outras.

A bordo, um dos grandes destaques é a experiência sonora, ponto onde a Volvo pareceu querer transformar o ES90 numa sala de concertos. O sistema (opcional) Bowers & Wilkins, com 25 colunas e 1610 W, tem Dolby Atmos e inclui altifalantes nos apoios de cabeça, o que cria uma imersão pouco comum num automóvel. Há ainda uma alternativa com assinatura Bose e modos de áudio inspirados nos estúdios Abbey Road, para dar mais corpo ao som.

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Mas, no habitáculo, nem tudo é à prova de críticas e há um ponto que não podemos deixar passar: a visibilidade traseira é praticamente inexistente quando o apoio de braço traseiro está recolhido. O vidro, já pequeno, fica quase totalmente obstruído, o que nos impede de usar o retrovisor.

Aqui, o ES90 podia ter olhado (literalmente) para o que fez o seu “primo” nórdico Polestar 4 e incluir um ecrã que nos mostrasse o feed em tempo real de uma câmara montada na traseira. Como não temos isto, somos obrigados a confiar nos retrovisores e nos sistemas electrónicos, o que nem sempre substitui a confiança do olho humano.

No volante, o ambiente mantém-se limpo e intuitivo. Aqui, temos botões sensíveis ao toque bem organizados e um selector de marcha na coluna de direcção; à frente, há um painel de instrumentos de 9 polegadas e um head-up display que mostram apenas o essencial, o que ajuda a manter o foco no que realmente importa.

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A condução é tranquila, previsível e muito assistida. O sistema one pedal pode ser activado, mas a lógica de travagem automática nem sempre responde como esperado em descidas. Depois, a suspensão permite ajustar a firmeza, mas os modos de condução resumem-se a ‘Standard’ e… ‘Off-Road’.

Ok, sabemos que a Volvo diz que o ES90 tem alma de SUV, mas a presença desta opção é exagerada. O que falta mesmo é um modo mais dinâmico e um maior controlo sobre a regeneração, que no modo automático actua de forma pouco configurável (trava se detectar um automóvel à frente).

A versão Single Motor Extended Range, com tração traseira, tem 245 kW e cumpre os 0 aos 100 km/h em 6,6 segundos. Os consumos anunciados de 16,3 kWh/100 km ajudam a sustentar uma autonomia de 638 km em ciclo combinado e até 765 km em cidade – durante o nosso teste, ficámos, ainda que ligeiramente, abaixo dos valores da marca: 16 kWh/100 km, para 246 km percorridos, com 50% de autonomia. Assim, talvez a autonomia mais realista do ES90 se aproxime dos 500 km.

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Para terminar, temos de regressar ao início: percebemos quando a Volvo diz que o ES90 é uma classe à parte, mas também é preciso ter consciência de que o Polestar 2 (fora as diferenças técnicas que referimos) se parece com este modelo em termos de aspecto. Não achamos que ‘SUV’ faça muito sentido na afirmação da marca e preferimos ver o ES90 como um herdeiro do conceito histórico dos ‘S’, agora com os olhos postos num futuro em que o EX60 será o principal intérprete.