G6 Long Range MY25: conduzimos o renovado SUV da Xpeng onde as boas mudanças são ensombradas pelas más traduções

Com uma arquitectura de 800 V e bateria 5C, o G6 vem com upgrades de valor em relação à versão anterior, mas traz algumas “nódoas” difíceis de ignorar.
Em 2025 conduzimos o G6 e, na altura, considerámos que este SUV juntava uma boa autonomia, bons recursos tecnológicos, conforto e um design intrigante que capta atenções. A Xpeng actualizou este modelo no final do ano passado, com uma arquitectura de 800 V e a nova bateria 5C Supercharging como protagonistas.
Depois de termos testado esta versão renovada, a ideia geral continua a ser a mesma, sobretudo em termos de design, onde as mudanças são apenas cirúrgicas no exterior. Continuamos com a silhueta fastback, mas agora com uma assinatura luminosa horizontal a toda a largura — a chamada ‘robot face’ — sem interrupções do logótipo.
As novas jantes de 20 polegadas e a traseira com spoiler ‘ducktail’ são outros upgrades, numa unidade ensaiada em Arctic White com interior Light Gray, que sublinha um posicionamento que cruza tecnologia com um toque mais premium. Debaixo do capot está um motor com 218 kW (296 cv) e 440 Nm, capaz de levar o G6 dos 0 aos 100 km/h em 6,7 segundos e até aos 202 km/h.

Com a nova bateria de 80,8 kWh, a marca anuncia consumos de 17,9 kWh/100 km e uma autonomia combinada de 535 km. Na prática, conseguimos melhor: registámos 14,1 kWh/100 km ao longo de 280 km, apesar de o sistema de leitura de consumos ser pouco intuitivo e limitado a intervalos fixos. Isto deixa-nos com a pulga atrás da orelha sobre o desempenho consolidado do G6, sobretudo tendo em conta esta discrepância de quase 4 kWh/100 km.
No habitáculo, as alterações estão em linha com o que aconteceu no exterior e não são tão evidentes como, por exemplo, o que aconteceu com o IONIQ 5. O ecrã central cresce para 15,6 polegadas (tinha 14,96), acompanhado por um painel de instrumentos de 10,25 polegadas, agora mais alto e menos comprido. É aqui que surgem as imagens das câmaras laterais ao activar o pisca, solução mais lógica que a de alguns concorrentes. Já o sistema de som Xpeng Xopera, com dezoito altifalantes e 960 W, tem nos dois altifalantes dedicados no banco do condutor um dos pontos mais imersivos do habitáculo.
Por falar em bancos, os dianteiros contam com ventilação, aquecimento e função de massagem com seis modos — de ‘Libertação do stress’ a ‘Massagem da cintura’ — e vários níveis de intensidade. A sensação de conduzir enquanto temos algo a mexer-nos e a fazer compressão nas costas é estranha, mas foi algo a que nos habituámos, mesmo em viagens mais curtas.

É mesmo uma daquelas coisas que não sabíamos de que precisávamos até experimentar. De resto, o conforto geral mantém-se como um dos pontos fortes: espaço generoso na segunda fila e uma sensação de sofá em viagem para quem viajou connosco.
Voltando à frente, a consola central reorganiza os suportes de copos e introduz bases de carregamento Qi com refrigeração. Já as saídas de ar abandonam o efeito de grelha e surgem integradas numa faixa iluminada com acabamento a imitar madeira escura, o que dá ao G6 um toque mais premium. O que se mantém são as ligações USB-A, USB-C e a tomada de 12 V num local de acesso difícil, sob a ponte da consola central. Como o porta-luvas é uma miragem, as soluções de arrumação escondida ficam limitadas ao compartimento sob o apoio de braços, que deveria ser um pouco maior.
Novidade é o retrovisor digital de nove polegadas (podemos ligá-lo ou manter o espelho clássico), que resolve o problema da visibilidade traseira comprometida pelos apoios de cabeça (algo em que o Volvo ES90 falha), com uma imagem de elevada qualidade – é mesmo a melhor que vimos nos modelos com um recurso idêntico que testámos. Aqui, nem sentimos a necessidade de fazer ajustes de brilho e contraste, como acontece noutros modelos.

No volante, onde se pediam alguns ajustes para melhorar a interacção, nada muda: os comandos do lado esquerdo do volante continuam limitados à climatização, uma escolha pouco intuitiva; o botão ‘Asterisco’ permite atribuições alternativas, mas, na prática, só faz sentido para activar o Cruise Control (LCC), a opção que acabámos por escolher.
Funções como modos de condução (‘Sport’, ‘Eco’, ‘Conforto’ e ‘Personalizado’) e os níveis de regeneração continuam totalmente dependentes do ecrã táctil, o que obriga a múltiplos toques, sobretudo com Apple CarPlay ou Android Auto activos. A Xpeng deveria ter, no mínimo, permitido associar os comandos do volante a estes dois parâmetros.
Mas se estas “manias” do G6 até podem ser consideradas ‘feitio’, há decisões que ficam mais difíceis de engolir, como a falta de cuidado da marca em traduzir de forma certeira algumas opções dos menus. É aqui que este consensual mar de rosas que é o G6 começa a ser invadido por alguns “espinhos”, ainda para mais quando a marca o anuncia como o derradeiro automóvel com IA.

As piores traduções estão no menu ‘Condução’, onde o modo ‘Leve’ da direcção assistida está traduzido para ‘Luz’, dado que, em inglês, esta opção é ‘Light’. Já o modo mais forte da sensação do pedal do travão é ‘Afiado’, quando, em inglês, esta opção é ‘Sensitive’: aqui, nem se percebe onde é que a marca foi buscar esta tradução, bastava ter assumido ‘Sensível’.
No menu ‘Assistência ao Condutor’, no separador ‘Segurança Ativa’ há mais erros nas opções das faixas: ‘Correção do alerta &’ e ‘Correção do som de alerta &’. Na verdade, isto não faz sentido, dado que as opções originais seriam, respectivamente, mais bem traduzidas do inglês como, por exemplo, ‘Aviso e Correção’ e ‘Aviso Sonoro & Correção’.
Ainda no menu ‘Condução’, quem quiser ligar o retrovisor digital pode sentir algumas dificuldades para encontrar a opção certa, isto porque há mais uma tradução errónea que não faz sentido: ‘Retrovisor de fluxo contínuo’, quando o original é ‘Streaming rearview mirror’. O mais correcto seria algo como ‘Retrovisor digital’ ou ‘Retrovisor em modo ecrã’. Encontrámos ainda um ‘Modo de Resgate’ que deveria ser um ‘Modo de Reboque’.

Com um preço de 50 790 euros e uma oferta de equipamento fechada, sem confusões de escolhas, este renovado G6 podia (ou devia) ter ido mais longe nas mudanças estéticas e corrigido opções de interacção no habitáculo. Os erros de tradução podem ser corrigidos com uma actualização, mas a verdade é que estão lá e são graves. Num modelo que ambiciona ser uma ‘IA sobre rodas’, há muitos detalhes por afinar na interface e na experiência de utilização.











