À “boleia” da Tesla, as autoridades dos EUA vão aplicar novas regras para evitar que ocupantes fiquem presos em automóveis após falhas eléctricas

Os reguladores norte-americanos vão estudar novas regras destinadas a garantir que condutores e passageiros conseguem sair de um automóvel depois de uma falha eléctrica. A decisão surge após vários casos, alguns com vítimas mortais, nos quais os ocupantes terão ficado presos em veículos equipados com puxadores embutidos e sistemas de abertura electrónicos.
A National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA) anunciou o início do processo depois de receber uma petição que pedia a investigação dos comandos mecânicos de emergência usados nos Tesla Model 3 de 2022. Segundo os autores, estes mecanismos são «pouco visíveis, não estão devidamente identificados e não cumprem as normas federais aplicáveis».
A agência recusou abrir a investigação nos termos solicitados, por considerar que o problema deve ser analisado através de um processo regulamentar capaz de abranger todos os fabricantes, e não apenas um modelo da Tesla. A decisão foi publicada esta sexta-feira no Federal Register.
«A NHTSA recebeu uma petição para exigir um sistema de saída de emergência que responda ao risco de os ocupantes ficarem presos nos veículos durante falhas de energia eléctrica, e a agência aceitou essa petição», explicou o regulador.
A abertura do processo não significa que venha a ser criada uma nova norma. A NHTSA vai, agora, recolher dados, ouvir fabricantes e outras entidades e abrir uma consulta pública antes de decidir se existe fundamento para alterar os requisitos federais de segurança.
A decisão surge menos de um ano depois de o organismo ter iniciado uma investigação a cerca de 174 mil Tesla Model Y, após receber nove relatos de puxadores exteriores que deixaram de funcionar. Em alguns casos, os proprietários não conseguiram entrar nos automóveis quando estavam crianças no interior. Uma análise preliminar concluiu que o sistema pode deixar de responder se os fechos electrónicos não receberem tensão suficiente da bateria de 12 V.
Em Dezembro de 2025, a NHTSA abriu ainda uma investigação aos comandos de emergência de aproximadamente 179 mil Tesla Model 3 de 2022. A petição que esteve na origem do processo alegava que os desbloqueios mecânicos eram difíceis de localizar, sobretudo nos lugares traseiros, segundo a Reuters.
Os automóveis da marca têm, ainda assim, mecanismos manuais para abrir as portas quando o sistema eléctrico falha. Contudo, estes encontram-se apenas no habitáculo e nem sempre estão colocados junto dos comandos usados no dia-a-dia. Nos lugares traseiros de alguns modelos, o acesso exige remover componentes do revestimento da porta.
A Tesla já admitiu que prepara uma reformulação. Franz von Holzhausen, responsável pelo design da marca, revelou no ano passado que a empresa quer «aproximar ou integrar o comando electrónico e o desbloqueio mecânico».
Na União Europeia, os automóveis homologados têm de cumprir o Regulamento Geral de Segurança e o Regulamento n.º 11 da Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa, conhecido como ‘UN R11’. Este, estabelece requisitos para fechaduras, dobradiças, fechos e componentes de retenção das portas, além de procurar impedir que estas se abram involuntariamente durante a circulação ou num acidente. A sua aplicação na UE está prevista no Regulamento (UE) 2019/2144.
Este enquadramento não proíbe, porém, puxadores embutidos ou sistemas electrónicos, nem contém ainda uma exigência abrangente que obrigue todas as portas a manter uma abertura mecânica simples e claramente identificada após a perda total da alimentação eléctrica.
A própria Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa (UNECE) reconheceu esta lacuna. No final de 2025, o grupo responsável pela segurança passiva criou a Task Force on Emergency Door Opening, depois de analisar dificuldades na abertura de portas activadas electricamente.
As propostas apresentadas em Junho de 2026 prevêem que os comandos interiores e exteriores sejam «intuitivos e acessíveis» e que as portas «possam ser destrancadas e abertas depois de uma falha de energia». Entre as soluções admitidas estão um mecanismo mecânico secundário, uma fonte de alimentação de reserva ou um sistema que permaneça operacional sem a bateria principal.
O projecto inclui ainda um ensaio no qual a porta terá de poder ser aberta após sessenta minutos sem alimentação eléctrica, de acordo com o relatório da UNECE. Contudo, estas alterações ainda não foram aprovadas nem transpostas para a legislação europeia.
Apesar da ausência de uma obrigação legal específica, o Euro NCAP passou a exercer pressão sobre os fabricantes. O protocolo de 2026 exige que os puxadores exteriores eléctricos permaneçam «acessíveis e funcionais depois dos testes de colisão».
Os modelos também são avaliados após uma quebra da alimentação de baixa tensão, e não é aceite que os socorristas tenham de ligar uma bateria externa ou procurar um cabo escondido na bagageira para abrir as portas. O Euro NCAP não é um regulador e estas condições não têm força de lei, mas o seu cumprimento influencia directamente a classificação de segurança atribuída a cada automóvel.








