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Entrevistámos Rui Bento, CEO da Pollen: «Com um sistema de troca de baterias, a autonomia deixa de ser uma preocupação, passa a ser infinita»

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A Pollen criou um sistema de troca de baterias que promete funcionar com diferentes marcas e modelos de motas e scooters eléctricas, graças a uma tecnologia própria que adapta a bateria ao veículo e não o contrário.

O objectivo desta startup portuguesa, fundada por Rui Bento (ex-Uber) e Miguel Morgado (na foto, em baixo), passa por eliminar tempos de carregamento, reduzir o custo de entrada na mobilidade eléctrica e criar uma alternativa viável para profissionais que dependem da mota como ferramenta de trabalho diária.

Em entrevista à MotorMais, Rui Bento explica como funciona a tecnologia da empresa e acredita que a troca de baterias faz mais sentido que o carregamento ultrarrápido, neste segmento.

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A Pollen fala num “sistema universal”, mas convencer fabricantes concorrentes a adoptar um standard comum parece extremamente difícil. Como estão a abordar essa negociação?
Não estamos a tentar convencer os fabricantes a adoptar um standard, nem a desenhar as suas motas em torno da nossa bateria. A nossa abordagem é outra: a bateria adapta-se ao veículo, e não o contrário.

Até hoje, a grande maioria dos fabricantes tem optado por desenvolver sistemas fechados, em que cada mota usa a sua bateria, diferente de todas as outras. Esta abordagem cria uma barreira significativa à troca de baterias: se todos os veículos usam baterias diferentes, é impossível que partilhem uma rede comum. É como se vivêssemos num mundo em que os automóveis da marca Ford só podem abastecer em postos da Ford, e os Toyota em postos da Toyota.

A bateria da Pollen foi desenvolvida em torno de um princípio-chave: a bateria adapta-se ao veículo, e não o contrário. Essa compatibilidade assenta em três pilares de desenho e engenharia. Primeiro, o Electronic Cell Switching, que ajusta dinamicamente a tensão de saída da bateria ao motor de cada mota.

Segundo, um sistema de comunicação universal, que permite à bateria interagir com a eletrónica de diferentes veículos. Terceiro, um desenho modular, pensado para encaixar fisicamente em motas de diferentes formatos.

O resultado é que a nossa bateria é retrocompatível com veículos que já circulam nas estradas. Hoje, as nossas baterias já alimentam motas de diversas marcas e modelos (como Horwin, Niu, Vmoto, entre outros): a bateria simplesmente adapta-se e aos veículos destes fabricantes, sem que os fabricantes tenham de fazer qualquer alteração aos seus veículos.

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O utilizador português está preparado para abdicar da “posse” da bateria e passar para um modelo de subscrição?
Os utilizadores procuram soluções de mobilidade que sejam simples, convenientes e económicas. Até hoje, a mobilidade eléctrica de duas rodas não tem sido nenhuma destas coisas.

Comprar uma mota eléctrica implica fazer três compromissos: pagar mais, porque a bateria torna a mota mais cara do que a equivalente a combustão; parar mais vezes, porque a autonomia é mais curta; e parar durante muito mais tempo, porque um carregamento completo pode levar cinco, seis ou sete horas.

Ninguém quer uma mota mais cara, e que tem de passar horas ligada à tomada todos os dias. E isto é particularmente incomportável para quem usa a mota como ferramenta de trabalho.

A subscrição da Pollen elimina estes três compromissos. A mota torna-se mais barata, porque a Pollen trata das baterias. As paragens de horas dão lugar a trocas de segundos. E a autonomia, na prática, deixa de ser uma preocupação: passa a ser infinita, porque os tempos de troca de baterias são irrisórios.

A questão deixa de ser acerca da posse da bateria, e passa a ser sobre o que o utilizador ganha quando o faz: uma mota mais barata, sem tempos de carregamento, e sem ansiedade de autonomia. Acreditamos que, posta nestes termos, a resposta do utilizador português será a mudança para uma solução de mobilidade que funciona.

O que acontece se um utilizador receber uma bateria com menos capacidade ou mais degradada do que a anterior?
O que mais importa, para o utilizador, é não ter de esperar horas enquanto as suas baterias carregam. É chegar a uma estação com baterias descarregadas e sair de lá com baterias carregadas e em condições, em segundos. É isso que a Pollen garante.

Nesta primeira fase da nossa operação, estamos focados em servir as pessoas para quem o problema que estamos a resolver é mais agudo: quem usa a mota para trabalhar. Não é atípico estes utilizadores fazerem mais do que uma troca por dia.

Nestas múltiplas trocas que estes utilizadores fazem todas as semanas e todos os meses, é importante saberem que a bateria está em perfeitas condições, e que lhes permitirá percorrer a distância que precisam. É menos importante se a bateria que recebem numa determinada troca, e com a qual só vão ficar até à próxima ida à estação, é menos nova do que a que acabaram de colocar na estação.

Há ainda um aspecto que vale a pena sublinhar: este modelo eleva a fasquia da fiabilidade e segurança. Sempre que uma bateria volta à estação, é diagnosticada automaticamente. Analisamos os sensores de temperatura, avaliamos o estado de saúde, asseguramos o balanceamento entre as células.

Só uma bateria que passe nestes testes é libertada para o utilizador seguinte. É uma diferença importante em relação a uma bateria que esteja na posse do utilizador, e que normalmente só é vista numa revisão, eventualmente muito infrequente.

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Acham que o futuro das duas rodas eléctricas passa mais pela troca de baterias do que pelo carregamento ultrarrápido?
Acreditamos que sim, sobretudo para o segmento que servimos.
Hoje, e nesta primeira fase de lançamento, o nosso foco está em servir os operadores de frota e profissionais de entregas, para quem a mota é uma ferramenta de trabalho em utilização intensiva.

Para este segmento, mesmo um carregamento “rápido”, de 45 a 60 minutos, perde para uma troca de segundos. Tempo parado representa receita perdida. E há uma diferença importante entre carros e motas: o carregamento ultrarrápido em motas e scooters eléctricas enfrenta limitações que não se aplicam aos automóveis.

As baterias de motas têm fortes restrições de volume e peso, o que limita as químicas viáveis e impossibilita a integração de sistemas de arrefecimento activo, que são essenciais para suportar correntes de carga elevadas em segurança. A isto soma-se a degradação acelerada que o carregamento rápido frequente provoca, e que num veículo leve, onde a bateria é o componente mais caro, se torna economicamente proibitiva.

A realidade do mercado confirma-o: a maioria das motas eléctricas hoje disponíveis nem suporta carregamento rápido, e mesmo nos modelos que suportam, “rápido” habitualmente significa horas, não minutos.

Em resumo: as duas tecnologias não competem pelo mesmo caso de uso. O carregamento rápido pode servir o utilizador ocasional, que esteja disposto a pagar um premium por baterias e veículos que o permitam; a troca de baterias é a única solução tecnicamente viável e economicamente racional para o segmento profissional.

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Existe o risco de o mercado criar vários standards universais incompatíveis entre si?
O que importa, mais do que o risco de surgirem múltiplos standards, é que surjam soluções que permitam a electrificação das motas. Os diferentes modos de transporte estão a electrificar.

Em 2025, 60% dos automóveis vendidos na União Europeia eram eléctricos ou híbridos, e 60% dos autocarros urbanos novos eram livres de emissões. Em contraste, apenas 6% das motas vendidas eram eléctricas. Enquanto os outros veículos estão numa trajectória de electrificação, as motas ficaram para trás.

Por esse motivo, não nos preocupa que existam standards diferentes. Preocupa-nos a ausência de tecnologia e soluções que tornem a eletrificação viável nestes veículos, como tem sido o caso até hoje.

Acreditamos que a tecnologia e a proposta de valor da Pollen podem ser um instrumento importante nesse sentido, e esperamos que a indústria avance na mesma direção: a de criar as soluções certas para uma eletrificação rápida.

Em cidades como Lisboa, onde muitas pessoas vivem em apartamentos sem garagem, acreditam que este modelo pode acelerar verdadeiramente a electrificação?
Sim. Um dos grandes inconvenientes do carregamento está precisamente relacionado com a dificuldade de carregar em casa. Numa cidade como Lisboa — que, a esse respeito, não é diferente da maioria das grandes cidades europeias — ligar um veículo à ficha não é uma opção acessível a todos.

Mesmo que as motas e scooters eléctricas sejam, hoje, habitualmente vendidas com baterias amovíveis, continua a não ser conveniente subir vários lances de escadas todas as noites com um par de baterias de dezoito quilos para carregar em casa.

Este é, aliás, um dos pontos-chave da proposta de valor da troca de baterias para utilizadores particulares. Se o nosso foco, nesta fase, está nos utilizadores profissionais que não podem parar horas todos os dias para carregar, é também verdade que o utilizador particular típico não tem hoje uma solução simples e conveniente para carregar a sua mota eléctrica em casa. A nossa rede resolve esse problema, e isso será determinante para a electrificação destes veículos numa cidade como Lisboa.

Queremos que deixe de existir uma razão racional para continuar a optar por uma mota a gasolina.

A longo prazo, o objectivo da Pollen é ser uma empresa tecnológica, energética ou uma infraestrutura de mobilidade?
O nosso foco é claro: tornar a mobilidade eléctrica em veículos ligeiros mais simples, mais conveniente e mais acessível que o combustível fóssil. Queremos que deixe de existir uma razão racional para continuar a optar por uma mota a gasolina.

Dito isto, a tecnologia que estamos a desenvolver tem aplicações que vão além das duas rodas, e acreditamos que a Pollen poderá vir a desempenhar um papel mais alargado no ecossistema energético.

Primeiro, a nossa bateria pode alimentar outros tipos de veículos, desde quadriciclos elétricos ligeiros (que hoje, muitas vezes, não têm autonomia suficiente para fazer rotas longas de distribuição) até barcos eléctricos.

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Segundo, pode servir como fonte portátil de energia em contextos em que não existe ligação à rede. Por exemplo, como energia de reserva para infraestruturas críticas das cidades, como semáforos — algo cuja importância ficou particularmente evidente durante o apagão recente — ou em locais de apoio em situações de emergência.

Terceiro, e talvez o ponto mais interessante a longo prazo: uma bateria Pollen, ao chegar ao fim da sua vida útil numa mota, ainda tem muitos ciclos pela frente num contexto estacionário.

Pode passar a armazenar e devolver energia à rede, contribuindo para a capacidade de armazenamento de que as redes eléctricas precisam cada vez mais, sobretudo à medida que dependem mais de energias renováveis, que são, por natureza, intermitentes.

Por isso, é-nos mais fácil falar sobre o impacto que gostaríamos e que queremos ter, que sobre o rótulo mais correcto para nos classificarmos.