N.º4 E-Tense Performance Line: conduzimos o compacto premium da DS que desafia as convenções dos eléctricos

A DS renovou o seu compacto premium, deu-lhe uma nova identidade visual e estreou uma motorização totalmente eléctrica. Mas, afinal, onde é que este modelo se encaixa?
Apresentado em 2025, o DS N.º4 é a evolução do DS 4 (2021) e faz parte de uma nova fase da marca francesa, que começou a adoptar a designação ‘N.º’. A renovação trouxe uma identidade visual mais próxima da estreada pelo N.º8 e, pela primeira vez nesta gama, uma versão 100% eléctrica. Foi precisamente esta variante, a E-Tense, com 213 cavalos e o nível de equipamento Performance Line, que conduzimos.
Em termos de design, a transformação mais evidente está à frente. O modelo anterior tinha uma grelha de grandes dimensões, com uma moldura cromada bem marcada. No N.º4, a dianteira torna-se mais horizontal, a grelha desce e fica mais integrada no pára-choques, enquanto as ópticas ficam mais estreitas. Os elementos verticais de iluminação diurna, uma das características mais reconhecíveis do antecessor, continuam presentes, mas são mais finos e geométricos. O resultado é uma frente que parece mais larga, baixa e tecnológica, com uma linguagem menos ornamentada que a do modelo anterior.
De perfil, percebe-se melhor que estamos perante uma evolução e não uma geração completamente nova. Mantêm-se a silhueta, a linha do tejadilho, o desenho das janelas e os vincos pronunciados da carroçaria. Na traseira, as ópticas apresentam um acabamento fumado com «efeito de escama», acompanhados por um friso preto que reforça visualmente a largura do automóvel.

Os guarda-lamas traseiros mantêm formas musculadas e o spoiler prolonga a aparência desportiva – é, de facto, um look muito agradável e de formas proporcionais. Com 4,4 metros de comprimento, o N.º4 mantém as dimensões de uma berlina compacta, embora a silhueta de inspiração fastback lhe dê uma aparência menos… convencional.
Nesta versão Performance Line, há ainda alguns pormenores que ajudam a distinguir o N.º4. As capas dos retrovisores e os elementos decorativos do pilar C apresentam acabamentos dourados, uma combinação que, juntamente com as jantes Zurich de 19 polegadas e a pintura Cinzento Cristal Pearl (extra de 900 euros), lhe dá muita uma imagem sofisticada; não somos grandes fãs de automóveis brancos, mas, neste caso, levantamos a guarda.
Se, por fora, até parece simplificar algumas linhas, no interior, a filosofia segue o oposto. O habitáculo é claramente maximalista, com uma abundância de materiais, superfícies, formas geométricas e comandos físicos. É um ambiente que transmite uma sensação de qualidade, sobretudo pela utilização de pele, tecido e Alcantara. Os elementos triangulares, inspirados no próprio logótipo da DS, repetem-se em vários pontos e dão alguma coerência a um ambiente bastante elaborado, que já é um clássico da marca francesa.

Na Performance Line, o interior em Alcantara preta não tem custos adicionais e reforça a aparência desportiva. É uma solução semelhante à utilizada por outros modelos de carácter mais dinâmico do universo Stellantis, como o Abarth 600e Scorpionissima. Contudo, o volante não acompanha esta tendência – gostávamos de ter tido Alcantara aqui, também.
O tablier é relativamente alto e integra um ecrã táctil de dez polegadas, onde interagimos com um sistema compatível com Android Auto e Apple CarPlay. Ao contrário do que acontece em muitos automóveis recentes, não existe aqui um tablet flutuante: o ecrã está embutido no próprio tablier, quase como se fosse apenas mais um dos seus elementos decorativos.
É uma opção interessante do ponto de vista estético, mas menos bem conseguida na ergonomia. O formato muito largo e estreito comprime a informação, obriga a percorrer demasiadas opções através de scroll e acaba por limitar a área útil dos menus. Apesar de o sistema ser relativamente intuitivo, um ecrã com proporções mais equilibradas podia facilitar bastante a interacção. Como está, parece quase um pormenor, um elemento secundário do habitáculo.

Como é apanágio dos automóveis europeus, e, claro, da, DS há muitos comandos físicos, desde logo com uma linha dedicada à climatização; depois, a consola central reúne vários botões, selectores e é totalmente preenchida, sem o habitual espaço inferior para guardar objectos. Na parte superior existe uma pequena tampa que dá acesso a uma zona para colocar o telemóvel, enquanto, mais atrás, sob uma cobertura retráctil, encontramos dois suportes para copos ou garrafas, uma entrada USB-C e uma tomada de 12 V.
O melhor está, contudo, na organização da zona dos comandos físicos. A DS criou um apoio central para a palma da mão que permite alcançar naturalmente várias funções sem necessidade de grandes movimentos. O polegar fica junto do selector dos modos de condução, o indicador e o dedo médio alcançam o selector da caixa, enquanto o anelar pode actuar sobre a roda de controlo do volume. É uma solução muito bem conseguida do ponto de vista ergonómico, dado que atribui praticamente uma função a cada dedo e permite controlar os principais comandos sem desviar demasiado a atenção da estrada.
Apesar da designação ‘Performance Line’, o DS N.º4 E-Tense não é propriamente um automóvel de carácter desportivo per si. A versão eléctrica vem com um novo motor de 213 cavalos, com 343 Nm de binário, o que permite acelerar dos 0 aos 100 km/h em 7,1 segundos. São números perfeitamente adequados a um compacto eléctrico com estas ambições, mas a experiência de condução não nos transmite uma personalidade particularmente radical; mas lá que o modo ‘Sport’ nos dá aquele kick, sobretudo vindos do modo ‘Eco’, dá.

Relativamente à autonomia, a DS anuncia até 450 km no ciclo WLTP, mas o computador de bordo, com 100% de bateria, apresenta uma estimativa de 345, um valor consideravelmente inferior ao oficial. A boa notícia chegou dos consumos: ao longo de 274 km percorridos, conseguimos uma média final de apenas 13,6 kWh/100 km, muito abaixo dos 15 prometidos pela marca, algo que nos surpreendeu.
O posicionamento do N.º4 E-Tense é uma das suas características mais interessantes. Pelas dimensões, pela qualidade dos materiais e pela ambição premium, aproxima-se “conceptualmente” de um Série 1 ou Classe A. A diferença é que nenhum destes modelos tem, actualmente, uma versão totalmente eléctrica, o que deixa a DS num espaço pouco explorado pelos fabricantes premium tradicionais.
A própria carroçaria contribui para esta diferenciação: não é um SUV, não segue a arquitectura quase monovolume de alguns eléctricos e também não nos mostra a silhueta de uma berlina tradicional. A DS classifica-o como «hatchback», mas visualmente aproxima-se de uma berlina compacta com uma linha de tejadilho de inspiração fastback.

Entre os eléctricos, o Peugeot E-308 será provavelmente um dos concorrentes mais directos, até pela proximidade técnica entre os dois modelos. O Cupra Born e o Volkswagen ID.3 também entram nesta comparação pelo formato e pelas dimensões, embora apresentem linguagens estéticas bastante diferentes. Já modelos como o Volvo EX30, o BMW iX1 ou o Mercedes-Benz EQA podem disputar o mesmo tipo de cliente, emboram recorram à “fórmula SUV”.
Com um preço final a rondar os 50 400 euros (nesta configuração, com alguns extras, como o texto de abrir), o DS N.º4 E-Tense Performance Line não é uma proposta particularmente acessível. Parte deste valor explica-se pelo posicionamento da marca, pela qualidade dos materiais e por um design que foge a sete pés das soluções mais comuns.
O N.º4 E-Tense acaba por convencer mais pela personalidade que pela vontade de impressionar com números, embora os consumos metam respeito. O habitáculo é sofisticado e a ergonomia dos comandos físicos está particularmente bem “resolvida”. Em contrapartida, o ecrã central poderia ser mais funcional, os bancos mereciam um apoio mais envolvente e a designação ‘Performance Line’ cria expectativas de uma experiência de condução mais desportiva.

A evolução estética face ao DS 4 também é mais evidente na frente e na traseira que no perfil, mas consegue dar-lhe uma identidade actualizada e coerente com a nova linguagem da marca. Num mercado eléctrico dominado por SUV e compactos de aspecto relativamente previsível, este DS consegue manter uma personalidade distinta, embora esta irreverência tenha um preço… considerável.











